O vidro do seu envidraçamento não se escolhe por gosto: a norma define o tipo e a espessura conforme a pressão de vento da sua região e a altura do seu prédio. Explico o mapa da NBR 6123, a tabela de pressões e por que temperado e laminado não servem para o mesmo lugar.
O vidro não se escolhe por gosto — se calcula
Uma das maiores fontes de dúvida sobre envidraçamento de sacada é o vidro: qual usar, qual espessura, temperado ou laminado. A boa notícia é que a NBR 16259 não deixa isso ao acaso nem ao gosto do vendedor. Ela define o tipo e a espessura do vidro a partir de critérios técnicos: a pressão de vento da sua região e a altura do seu prédio.
Como coordenei a redação dessa norma, vou explicar essa lógica de forma que você consiga entender e verificar. É um dos pontos onde mais se erra no mercado e onde a diferença entre acerto e erro é a sua segurança.
Vidro de segurança: laminado ou temperado
A norma estabelece que os painéis de um sistema de envidraçamento devem usar vidros de segurança
: laminado ou temperado. E define que o tipo de vidro utilizado deve atender aos valores de pressão de vento e aos critérios estabelecidos para cada região do país onde o sistema será instalado.
Ou seja: não é o mesmo vidro para o Brasil inteiro. O vidro precisa ser compatível com a carga de vento do lugar específico. E aqui entra a diferença fundamental entre os dois tipos de vidro de segurança.
A diferença de resistência
O vidro de segurança temperado é de seis a sete vezes mais resistente do que um vidro comum laminado. Essa diferença é o que determina onde cada um pode ser usado.
Em regiões de poucos ventos, ou em prédios baixos, onde a incidência de vento é pequena, é possível usar um vidro mais frágil, como o laminado comum. Já em regiões de ventos mais fortes como São Paulo, Rio de Janeiro e boa parte do Sudeste e do Sul, é preciso usar vidros mais resistentes. É aí que o temperado, com sua resistência muito superior, se torna necessário.

O mapa das regiões: NBR 6123
Para saber qual a pressão de vento da sua localização, a NBR 16259 traz um mapa do Brasil dividido em regiões conforme a pressão de vento — um mapa retirado da NBR 6123, que trata das forças do vento em edificações. A norma incorpora esse mapa para que você tenha, dentro da própria norma de envidraçamento, o material necessário para o estudo.
O mapa divide o país em regiões. Para dar referência concreta:
- A região 1 cobre, por exemplo, a parte norte do país, como Rondônia — área de ventos mais baixos
- O estado de São Paulo tem faixas na região 3 e faixas na região 4
- A capital de São Paulo está na região 3
- Campinas, Barueri e a Grande São Paulo, no entorno da capital, estão na região 4
O primeiro passo, portanto, é identificar em qual região você está. Mas há fatores adicionais a considerar: se a edificação está totalmente livre e exposta, ou se está protegida por prédios vizinhos e outras barreiras. Esses fatores também influenciam o cálculo da pressão real sobre o sistema.
Atenção: A localização na região do mapa é o ponto de partida, não o cálculo completo. Exposição, presença de prédios próximos e geometria da edificação entram na conta. Mas estar de acordo com a região da norma já é o primeiro e mais importante critério a verificar em um fornecedor.
A tabela de pressões: região e altura juntas
Com a região identificada, o segundo fator é a altura do prédio. A norma traz uma tabela com valores de pressão de vento conforme a região do país e a altura da fachada da edificação. A altura é organizada por faixas de pavimentos: até 2, até 5, até 10, até 20 e até 30 pavimentos.
Um exemplo prático de São Paulo: muitos prédios nas zonas sul e oeste têm por volta de 25 andares — ou seja, entre 20 e 30 pavimentos, o que nos leva à faixa de até 30 pavimentos. Cruzando essa faixa de altura com a região, chegamos à pressão que o sistema precisa suportar.
O cálculo é da torre, não do seu andar
Um ponto que faço questão de esclarecer: o cálculo é feito para a torre inteira, não para o andar específico de cada morador. Não se pode fazer uma especificação para quem mora no segundo andar e outra para quem mora no décimo quinto — isso abriria espaço para confusão, para vender uma coisa e entregar outra. A norma é clara: o valor é definido pela região e pela altura da fachada da edificação.
Há ainda detalhes que entram na conta da altura real: pé-direito duplo nos primeiros andares, pavimentos sobre solo ou pedra. Tudo isso precisa ser considerado no estudo da torre.
Os valores na prática — a pressão de segurança
Vou aos números, com os exemplos que uso para ilustrar. Aqui é importante uma distinção: existe a pressão de teste e existe a pressão de segurança. Você faz um teste, mas o que precisa ser entregue e suportado é a pressão de segurança — o valor que o equipamento precisa resistir sem soltar nenhum componente e sem ter o desempenho deteriorado.
Exemplo 1: capital de São Paulo
Um prédio na capital de São Paulo, com até 30 pavimentos, está na região 3. A pressão de segurança correspondente, nesse caso, é de 1.750 pascais. É esse o valor que o sistema precisa suportar para ser considerado seguro nessa situação.
Exemplo 2: Campinas, Barueri e arredores
Já um prédio em Campinas, Barueri ou nas proximidades da capital — região 4 — exige mais. A pressão de segurança nesse caso sobe para 2.210 pascais. O equipamento precisa resistir a essa carga maior, sem soltar peças e sem se deteriorar quando movimentado.
A diferença entre os dois exemplos mostra por que o mesmo sistema não serve para todo lugar: de 1.750 para 2.210 pascais há um salto significativo de exigência, e ele se traduz em vidro, perfil e fixação dimensionados de forma diferente.
A própria norma traz, em anexo, um exemplo completo de como fazer esse cálculo — com uma aplicação passo a passo, incluindo um edifício de exemplo e o detalhamento da região, da quantidade de pavimentos e da altura. É um guia prático dentro da própria norma.
A espessura do vidro: conexão com a NBR 7199
Definido o tipo de vidro e a pressão a suportar, falta a espessura. A espessura do vidro é um tema crítico e precisa ser calculada de acordo com a NBR 7199. Ela é definida a partir da altura do prédio, da localização e, quando necessário, de ensaios de túnel de vento.
Espessura e tipo de vidro estão completamente conectados. Se você usa um vidro mais frágil, como o laminado, provavelmente vai precisar de uma espessura muito maior para compensar. Se usa o temperado, mais resistente, a equação muda. Não dá para escolher um sem pensar no outro.
Por que a fixação muda tudo: o problema da flecha
Há uma particularidade do envidraçamento de sacada que torna a escolha do vidro ainda mais técnica. Nesses sistemas, os vidros são presos apenas na parte superior e inferior — por perfis superiores e inferiores. Eles não são requadrados, ou seja, não têm perfis estruturais de alumínio em todo o perímetro.
Por estarem fixados apenas no topo e na base, esses vidros se movimentam com facilidade e criam uma flecha — uma curvatura, um ‘embarrigamento’ — quando solicitados pelo vento. Essa flecha influencia diretamente o desempenho e a escolha do vidro.
É aqui que a resistência do temperado faz diferença: ao se movimentar e criar essa flecha, o temperado — seis a sete vezes mais resistente — suporta a solicitação, enquanto um vidro mais frágil, como o laminado nas mesmas condições, pode quebrar com muito mais facilidade.
Esse é um exemplo perfeito de por que envidraçamento de sacada é engenharia: o mesmo vidro que funciona perfeitamente requadrado em uma esquadria pode ser inadequado quando preso apenas em duas bordas em uma sacada. O contexto de fixação muda o comportamento do vidro.
Como aplicar tudo isso na sua decisão
- Identifique a região do seu imóvel no mapa da norma (base na NBR 6123)
- Determine a faixa de altura da torre — o cálculo é da edificação, não do seu andar
- Confirme a pressão de segurança correspondente à sua região e altura
- Verifique se o tipo de vidro (laminado ou temperado) é adequado a essa pressão
- Confirme se a espessura foi calculada conforme a NBR 7199
- Exija o ensaio que comprova a resistência a essa pressão de segurança
Conclusão
A NBR 16259 transforma a escolha do vidro de uma questão de gosto em uma questão de cálculo. Tipo, espessura e pressão de segurança são definidos pela sua região e pela altura do seu prédio — e o temperado, seis a sete vezes mais resistente que o laminado comum, torna-se necessário onde os ventos são fortes, como em boa parte de São Paulo. Quando você entende essa lógica, fica claro por que não existe sistema único que sirva para todo lugar, e por que exigir o cálculo correto e o ensaio que o comprova é a melhor proteção que você pode ter. Envidraçamento de sacada é engenharia aplicada à sua segurança — e a norma é o mapa que garante que ela seja feita direito.
Sobre o autor
Rodrigo Belarmino Souza é arquiteto e administrador, com MBA pela FIA-USP e mais de 10 especializações em engenharia e gestão. Fundou a SOLID em 2006, empresa que opera com 104 colaboradores, 3.000m² de fábrica própria e mais de 3 milhões de metros de sistemas instalados em São Paulo. É coordenador da ABNT NBR 16259, norma que regula o envidraçamento de sacadas no Brasil, tendo redigido vários de seus capítulos. Ganhador do Prêmio Internacional Leading Experts in Balcony Glazing Solutions Brazil, é membro do C12, grupo de CEOs cristãos que integram fé e negócios.